Em quatro capitais brasileiras, população negra é maioria em áreas mais vulneráveis a riscos climáticos
Estudo do Instituto Pólis sobre Belém (PA), Porto Alegre (RS), Recife (PE) e São Paulo (SP) revela que, na capital do Pará, população negra tem até 30 vezes mais chances de hospitalização por doenças ligadas à falta de saneamento;
- Favelas têm até 3 vezes menos arborização que bairros com população predominantemente branca;
- Regiões com população negra, de baixa renda e famílias chefiadas por mulheres são mais afetadas por inundações, deslizamentos e doenças, devido à segregação territorial e à falta de infraestrutura básica;
- Em Belém, a taxa de incidência de internação por doenças de veiculação hídrica entre crianças e jovens é quase 13 vezes maior do que nas pessoas com mais de 29 anos.
- Esta é a primeira análise do racismo ambiental de cidades brasileiras com os dados mais recentes do Censo 2022, revelando padrões de desigualdade que se mantêm ou se aprofundaram na última década
São Paulo, 3, de 2025 – Estudo inédito do Instituto Pólis, com apoio da Misereor, realizado com base nos dados mais recentes do Censo 2022 (IBGE) e da plataforma UrbVerde (2024), expõe detalhes do racismo ambiental no Brasil. A pesquisa analisou quatro capitais – Belém, Porto Alegre, Recife e São Paulo – e demonstra com números como a segregação territorial determina quem sofre mais com as mudanças climáticas. Segundo os dados, quem mais vêm sofrendo com os eventos extremos do clima são pessoas negras, de baixa renda, mulheres, e pessoas que vivem em regiões com acesso inadequado à infraestrutura urbana. Os dados completos do estudo estão disponíveis aqui.
A população negra, pobre e periférica é sistematicamente a mais atingida por inundações, deslizamentos e doenças relacionadas a eventos extremos causados pelas mudanças climáticas nas quatro capitais. Enquanto bairros de alta renda e predominância branca têm até 99% de cobertura de esgoto e ruas bem arborizadas, as favelas e áreas de risco – onde a presença de pessoas negras é majoritária – concentram os piores índices de saneamento e infraestrutura, tornando-se os territórios mais vulneráveis à crise climática.
O estudo Racismo Ambiental e Injustiça Climática realizou uma análise territorial cruzando dados sociodemográficos com indicadores de vulnerabilidade climática e acesso a serviços urbanos. Foram analisados indicadores como coleta de esgoto e lixo, renda, cobertura vegetal, permeabilidade do solo e infraestrutura de drenagem. Para compreender os diferentes aspectos da crise ambiental e climática nas cidades, foram analisados três recortes territoriais diferentes: as áreas predominantemente brancas, as favelas e comunidades urbanas e as áreas de risco.
Desigualdade de gênero afeta mulheres nas quatro capitais
Mulheres negras, chefe de família e com menor escolaridade formam o grupo populacional mais afetado por eventos climáticos extremos e com menor capacidade de resposta. Isso decorre da combinação de fatores como os papéis sociais de gênero, as disparidades de renda, escolaridade e raça, assim como a distribuição desigual de infraestruturas no ambiente urbano, como mostra a pesquisa do Pólis.
No Recife, 7,8% das mulheres responsáveis pelo domicílio não são alfabetizadas, mas essa taxa sobe quase 6 pontos percentuais em favelas e comunidades urbanas da capital pernambucana, chegando a 13,5%. Esse padrão de desigualdade é semelhante nas demais cidades. Em São Paulo, o índice passa de 3,5% no total do município para 8,7% nas favelas paulistanas - mais que o dobro. Em Porto Alegre, são 2,9% na média geral e 5,3% nas favelas - concentração quase duas vezes maior (1,8x). Já em Belém, a variação é de 3,7% na média da cidade e 4,7% nas favelas. Embora a diferença não pareça tão expressiva na capital paraense, vale notar que, de todas as mulheres não alfabetizadas responsáveis por domicílios, 76,9% residem em favelas.
COMPARATIVO | Confira alguns destaques dos dados das quatro capitais
- As favelas são mais negras e menos arborizadas. Em São Paulo, a população negra é 43,4% no município, mas salta para 66,3% nas favelas. A presença de árvores no entorno das casas em favelas é drasticamente menor na capital paulista: 29,5% contra a média de 68,0%. Em Porto Alegre, cai de 79,3% (média) para 34,0%; em Recife, de 52,3% para 27,1%.
- Saneamento é um direito assegurado principalmente em bairros brancos. Em Recife, a cobertura de esgoto é de 88,4% nas áreas predominantemente brancas, mas despenca para 39,0% nas favelas (majoritariamente negras). Em São Paulo, a coleta de lixo domiciliar atende 97,8% das áreas mais brancas, mas apenas 77,2% das favelas.
- Renda e raça definem a exposição ao risco. Em Belém, a renda média em áreas de risco (1,9 salário mínimo) é 31% menor que fora delas. Em Porto Alegre, a população negra representa 25,9% do total, mas é 40,2% nas áreas de risco.
- O impacto brutal na saúde de crianças e pessoas negras também foi avaliado. Os riscos relacionados a certas doenças são amplificados pelas mudanças climáticas que aumentam a frequência e a intensidade das chuvas. Em Belém, a taxa de internação por doenças de veiculação hídrica entre pessoas negras (70,1/100 mil) é 30 vezes maior que entre brancos (2,3/100 mil). Em Recife, crianças e jovens (0-29 anos) representam 73,5% das internações por essas doenças.
O estudo cruzou dados socioterritoriais do Censo Demográfico de 2022 com indicadores de infraestrutura urbana e variáveis ambientais da Plataforma UrbVerde (2024), criando um retrato detalhado da desigualdade climática intraurbana.
“Os dados não deixam margem para dúvidas: a crise climática aprofunda desigualdades históricas. Não haverá justiça climática sem superar o racismo ambiental que estrutura nossas cidades. É urgente colocar os territórios e as comunidades mais vulnerabilizadas no centro das políticas públicas", afirma Cássia Caneco, diretora do Instituto Pólis.
Famílias de baixa renda, populações negras, indígenas e quilombolas, população em situação de rua e pessoas que vivem em situação de risco são os grupos mais vulnerabilizados que precisam ser priorizados por políticas públicas que integrem ações multisetoriais.
“São exemplos de ações necessárias ao enfrentamento das mudanças climáticas e à promoção de justiça territorial: urbanização de favelas, planejamento participativo e gestão comunitária de risco, melhorias habitacionais em assentamento precários, obras de infraestrutura, ampliação da rede e dos serviços de saneamento ambiental nas áreas mais deficitárias, produção de moradia em áreas de centralidade de empregos, assim como o aumento de áreas verdes e permeáveis, o investimento no sistema de saúde pública (da atenção básica ao monitoramento epidemiológico), a implementação de programas associados aos trabalhos do cuidado (voltados a quem cuida e a quem precisa de cuidados), a expansão e qualificação do transporte coletivo e a melhoria das capacidades técnico-institucionais de governos locais para enfrentar os desafios da crise climática.” conclui Cássia Caneco.
DESTAQUES DOS RESULTADOS DE CADA CAPITAL
RECIFE (PE)
Enquanto os bairros ricos e majoritariamente brancos do Recife, como os chamados “12 Bairros”, têm quase 90% de cobertura de esgoto, nas favelas da capital pernambucana esse índice despenca para apenas 39%. Este é um dos abismos sanitários revelados pelo novo estudo do Instituto Pólis, que mostra como a segregação racial e a crise habitacional empurram a população pobre e negra para áreas sem infraestrutura e/ou sem aptidão para ocupação urbana, contituindo territórios de precariedade urbanística ou situaçòes de risco, tornando esses grupos demográficos as principais vítimas das chuvas intensas e inundações.
No Recife, a escolha não é entre morar em área de risco ou não; é entre morar em área de risco ou não morar em lugar nenhum. A crise habitacional está no epicentro da crise climática e a cidade é um exemplo claro de como a falta de moradia digna joga a população para áreas de risco, intensificando os desastres. 190 mil pessoas vivem em situação de risco mapeado na cidade.
Enquanto 60,4% da população do Recife é negra, nas favelas e comunidades urbanas esse percentual salta para 73,8%. Apenas 39% dos domicílios em favelas têm acesso à rede de esgoto, contra 60,3% na média municipal. Nas áreas de risco, a renda média do responsável pelo domicílio é de 1,8 salário mínimo, menos da metade da renda em áreas sem risco. No Recife, o acesso à infraestrutura urbana é questão de raça, gênero e renda, conforme mostram os dados:
- Esgoto: áreas brancas (88,4%) vs favelas (39,0%) vs média municipal (60,3%)
- Arborização: áreas brancas (86,6%) vs favelas (27,1%) vs média municipal (52,3%)
- Renda: áreas brancas (R$ 9.200,51) vs média municipal (R$ 3.751,83) - 2,5 vezes maior
- Mulheres chefes não alfabetizadas: favelas (13,5%) vs média municipal (7,8%)
PORTO ALEGRE (RS)
A tragédia das enchentes de 2024, que desabrigou milhares em Porto Alegre, teve um recorte racial e social preciso, conforme dados do Censo 2022. Enquanto a população negra representa 25,9% dos porto-alegrenses, ela constituía 40,2% das pessoas vivendo em áreas de risco (hidrológico ou geológico). Bairros como Sarandi e o 4º Distrito, os mais castigados pelas águas, concentram renda inferior à metade da média da cidade e menor acesso a esgoto e infraestrutura de drenagem.
Mesmo eventos extremos de grande abrangência e extensão, como as enchentes históricas de 2024 no Rio Grande do Sul, geram impactos localizados e muito desiguais que escancaram as disparidades socioterritoriais já existentes. Na capital Porto Alegre, os grupos mais afetados foram principalmente famílias pobres e áreas com maior presença de pessoas negras. Sem uma política de recuperação pós-tragédia climática adequada, as famílias mais impactadas tiveram que se deslocar de seus territórios de origem ou retornaram a essas áreas sem nenhum tipo investimento ou proteção, o que pode implicar uma exposição a novas ocorrências como as de 2024.
Na capital gaúcha, 81,2% dos domicílios estão em vias com bueiros, contra apenas 40,7% nas favelas; 84,8% estão em vias com calçadas, mas, em favelas, são apenas 38,8%; e 79,3% das casas estão em ruas arborizadas, mas no interior de favelas esse índice é de 34,0% – índice quase 60% inferior à média municipal.
Enquanto a população negra representa 25,9% em Porto Alegre, nas áreas de risco esse índice sobe para 40,2%. A renda média em áreas de risco (R$ 2.506,71) equivale a menos da metade da renda fora delas. Apenas 68,4% dos domicílios em áreas de risco têm acesso à rede de esgoto. Bairros periféricos como Sarandi e Humaitá, com alto percentual de moradores no Cadastro Único e pessoas que integram programas de transferência de renda, foram os mais atingidos.
SÃO PAULO (SP)
Nas favelas de São Paulo o acesso à rede de esgoto passou de 70,5% em 2010 para 76,9% em 2022, mas continua muito abaixo da média municipal, de 94,6%. Na cidade, 91,7% das moradias contam com a coleta domiciliar de lixo, enquanto, nas favelas, o índice é de 77,2%. Ainda na capital paulista, apenas 54,9% dos domicílios em favelas estão em vias com calçadas (guias e sarjetas para escoamento da chuva) e 29,5% deles têm árvores no entorno, enquanto a média da cidade é de 91,0% e 68,0%, respectivamente.
A segregação espacial e as desigualdades relacionadas às mudanças do clima em São Paulo não se expressam apenas nos indicadores de infraestrutura urbana. As longas distâncias entre trabalho e moradia são uma máquina de emissões de poluentes e injustiça climática.
Dados do Instituto Pólis mostram que usar os imóveis ociosos do centro da capital para moradia social poderia ter evitado a emissão de 4,4 milhões de toneladas de CO2 nos últimos 20 anos com a redução de viagens motorizadas feitas diariamente entre casa e trabalho. Além do corte na emissão de gases de efeito estufa e do ganho de tempo de deslocamento, a produção de moradia social em áreas centrais também poderia atender a demanda de famílias que vivem em situação de risco na capital paulista.
Enquanto isso, a população das periferias e favelas – majoritariamente negra – tem renda três vezes menor que a média municipal e uma taxa de mulheres chefes de família não alfabetizadas 17 vezes maior que os bairros brancos e ricos, uma desigualdade que piorou na última década. Nas áreas de risco, apenas 81,0% das casas têm rede de esgoto, contra 94,6% na média da cidade. Em relação à saúde, a população negra, que representa 43,4% da população total, responde por 51,4% das internações por arboviroses - doenças virais, como a dengue, transmitidas, principalmente, por mosquitos e carrapatos.
Segundo o estudo do Pólis, 14,8% do território municipal paulistano classificado como urbano tem cobertura vegetal e 43,7% da área total possui solo permeável, mas, nas favelas, esses índices caem para 11,9% e 38,1%, respectivamente.
Comparação com 2010 mostra aprofundamento das desigualdades em São Paulo:
- Renda em favelas (2010-2022): média municipal cresceu, mas renda em favelas estagnou em aproximadamente 1,4 salário mínimo
- Esgoto em favelas: evoluiu de 70,5% (2010) para 76,9% (2022), mas ainda muito abaixo dos 94,6% da média municipal
- População negra em áreas de risco: 20,3% dos negros paulistanos vivem em áreas de risco vs 10,2% dos brancos
- Arborização: áreas predominantemente brancas (88,9%) vs média municipal (68,0%)
BELÉM (PA)
Na capital que será sede da COP30, ser negro significa ter 30 vezes mais chances de ser hospitalizado por uma doença transmitida pela água contaminada: em 2024, a cada cem mil pessoas negras, 70,1 foram internadas em decorrência desse tipo de doença, enquanto houve 2,3 internações para cada cem mil pessoas brancas.
Na capital paraense, 94,1% das internações por arboviroses foram de pessoas negras, embora esse grupo demográfico corresponda a 75,2% da população total. Sua taxa de incidência em 2024 foi de 38,6 internações a cada cem mil pessoas negras: 7 vezes mais que a taxa de pessoas brancas (5,5).
O abandono tem pelo menos duas faces: na porção continental da capital paraense, os índices de saneamento são melhores onde a população branca mais se concentra; nas ilhas, comunidades ribeirinhas são invisibilizadas pelo poder público, sofrendo com a falta de políticas adaptadas ao seu modo de vida.
Nas áreas predominantemente brancas, a renda média (R$ 6.693,50) é 2,2 vezes maior que a média municipal. A taxa de internação por doenças de veiculação hídrica entre a população negra (70,1/100 mil) é 30 vezes maior que entre a população branca e 94,1% das internações por arboviroses foram de pessoas negras. Na capital do Pará, 136,4 mil pessoas (10,2% da população) vivem em áreas de risco hidrológico.
Em Belém, 75,9% dos domicílios estão em vias com bueiros, mas nas favelas, o indicador é de apenas 68,8%. Nas favelas da capital paraense, 68,0% dos domicílios têm calçadas, enquanto a média municipal é quase 10 pontos percentuais superior, de 77,5%. Apenas 45,5% dos domicílios do município estão em ruas arborizadas, mas, no interior de favelas, o índice é ainda mais crítico, de 35,1%.
- Esgoto: áreas predominantemente brancas (51,6%) vs média municipal (37,6%)
- Renda: áreas brancas (R$ 6.693,50) vs média municipal (R$ 3.045,00) - 2,2 vezes maior
- Internações por doenças hídricas: população negra (70,1/100 mil) vs população branca (2,3/100 mil)
- Arborização: áreas de risco (36,4%) vs áreas sem risco (48,7%)
Sobre o Instituto Pólis | Organização da sociedade civil (OSC) de atuação nacional, constituída como associação civil sem fins lucrativos, apartidária e pluralista. Desde sua fundação, em 1987, o Pólis tem a cidade como lócus de sua atuação. A defesa do Direito à Cidade está presente em suas ações de articulação política, advocacy, formação, pesquisas, trabalhos de assessoria ou de avaliação de políticas públicas, sempre atuando junto à sociedade civil visando o desenvolvimento local na construção de cidades mais justas, ambientalmente equilibradas sustentáveis e democráticas. São mais de 30 anos de atuação com equipes multidisciplinares de pesquisadores que também participam ativamente do debate público em torno de questões sociais urbanas. Aproxime-se https://polis.org.br/



