As ‘‘canetinhas’’ e o novo manual da vida cotidiana
| No fim do ano passado, o Natal ganhou um personagem improvável. Elon Musk, visivelmente mais magro, apareceu nas redes vestido de Papai Noel e brincou com a própria transformação física. “Ozempic Santa”, escreveu. Depois corrigiu: tecnicamente era Mounjaro, mas a piada já estava feita. |
![]() (Imagem: X/Twitter @elonmusk) |
| A cena viralizou não só pelo personagem, mas pelo que ela simboliza. Desde que as canetas de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, entraram no mainstream, esse tipo de transformação deixou de ser exceção e passou a atravessar todo mundo — dos bilionários do Vale do Silício ao colega da mesa ao lado. |
| Segundo a IQVIA, as prescrições de medicamentos da classe GLP-1 cresceram mais de 300% no mundo desde 2021. Nos Estados Unidos, a KFF estima que 1 em cada 8 adultos já usou ou usa esse tipo de medicamento. No Brasil, a procura também disparou, puxada principalmente pelo uso fora da indicação original. |
| Criado para tratar diabetes tipo 2, o medicamento rapidamente começou a redesenhar rotinas, hábitos e até vínculos sociais. |
| A comida perde o papel de ritual |
| Um dos primeiros impactos aparece à mesa. |
| Estudos clínicos mostram que até 44% dos pacientes relatam náusea, além de uma queda significativa no apetite. Pesquisas analisadas pela Harvard Medical School indicam que muitos usuários não sentem apenas menos fome, mas menos prazer ao comer. Dados da National Restaurant Association mostram que, nos EUA, o crescimento do ticket médio desacelerou justamente nas regiões onde o uso de GLP-1 se popularizou, enquanto cresceu a procura por pratos leves e consumo individual. |
![]() (Imagem: Reprodução) |
| Na prática, a comida perde o papel de recompensa, afeto ou ritual social. Vira algo funcional, quase burocrático. Assim, jantares longos passam a parecer cansativos, pedidos em restaurantes ficam menores e eventos sociais que giram em torno da comida vão perdendo graça. |





