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Coluna Política

Pedido de vista de Dino mela julgamento, por enquanto, mas expõe colapso moral do Supremo

O placar empatado mostrou que a ala de Moraes não conseguiu controlar tudo; o pedido de vista melou o julgamento, mas não apagou o retrato da blindagem

Por Leandro Ruschel

16/09/2026 - 08:04

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Para salvar Moraes da Lei Magnitsky, Dino monta cilada para bancos
Depois de várias horas de sessão, atrasos, bastidores e constrangimentos públicos, o julgamento que poderia autorizar a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes terminou suspenso. Flávio Dino pediu vista e melou o julgamento, por enquanto.
Do ponto de vista regimental, o pedido de vista é um instrumento previsto. O ministro tem prazo para devolver o voto, mas ninguém que acompanhou a sessão de hoje pode fingir que viu apenas um gesto técnico. Dino fez o que restava à ala de Moraes depois que as outras tentativas de controlar o encaminhamento do julgamento começaram a se esgotar.
A imprensa já havia antecipado a estratégia: tumultuar a sessão, discutir preliminares, tentar juntar casos diferentes, criar suspeições, deslocar o foco, impedir que o plenário chegasse ao mérito. Quando o caminho ficou estreito, veio o pedido de vista. O jogo foi melado, mas não saiu barato.
Quem teve estômago para assistir ao julgamento viu algo mais grave do que uma disputa de interpretação jurídica. Viu, em tempo real, o colapso moral, político e jurídico do país. Viu ministros operando como integrantes de uma mesma corporação. Viu cinismo, dissimulação, agressividade, constrangimento e medo. Viu o “STF Futebol Clube” tentando proteger um dos seus.
O primeiro impacto do dia veio com Kassio Nunes Marques, que se declarou impedido
A justificativa apresentada foi a de que, como presidente do TSE, ele não deveria participar de um caso que poderia influenciar as eleições. Mas, nos bastidores e na imprensa, já circulavam mensagens envolvendo seu filho e relações indiretas com serviços prestados ao Banco Master. O ministro declarou o impedimento e saiu imediatamente da sessão.
Esse movimento se encaixa na tentativa de jogar lama para todos os lados. A ala de Moraes havia pedido acesso à íntegra do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. E, por uma coincidência que exige muita fé na Justiça brasileira, novas informações daquele celular começaram a aparecer justamente no dia do julgamento. A lógica é transparente: espalhar suspeitas, levantar nomes, fabricar constrangimentos e vender a tese de que a investigação contra Moraes seria apenas uma manobra para esconder os problemas dos outros.
O segundo ponto ficou evidente pela postura de Fachin
O presidente do Supremo demonstrou inclinação favorável à abertura da investigação. Do outro lado, Gilmar Mendes e Flávio Dino se comportaram como advogados de defesa de Moraes.
Gilmar assumiu o papel de dono do tribunal, talvez dono do Brasil. Foi agressivo, prepotente, cínico. Acusou Mendonça de agir politicamente, movido pelas eleições, como se o Supremo não tivesse agido politicamente nos últimos anos. Como se não fosse Gilmar o ministro que faz interlocução constante com políticos, fala em redesenhar o sistema de governo e já lembrou publicamente que Lula só está na presidência por decisão do Supremo.
A cobrança de neutralidade, vinda de Gilmar, é uma peça de ficção.
Dino, por sua vez, passou a minar a presidência da sessão
Questionou Fachin, atravessou procedimentos, tentou assumir o ritmo do julgamento e, no fim, usou o pedido de vista para suspender tudo. Antes disso, junto de Gilmar, insistiu na tentativa de juntar o julgamento sobre Moraes com o pedido de investigação contra André Mendonça.
Essa era a manobra central: transformar o julgamento de Moraes em uma espécie de empate entre ministros. Em vez de discutir as mensagens, o contrato, e a conduta de Moraes, a pauta viraria uma guerra entre Moraes e Mendonça. É a velha estratégia: quando o mérito é impossível de enfrentar, mata-se o mérito na casca.
Mendonça foi o único que, de fato, explicou o caso. Relatou como identificou as conversas, como pediu à Polícia Federal a identificação da contraparte, como recebeu a informação de que o contato era Alexandre Moraes e como levou o caso à presidência. Falou de rito, de procedimento, de limites. Em uma sessão dominada por teatro político, foi um dos poucos momentos em que alguém tratou dos fatos.
A assimetria ficou gritante. Enquanto Gilmar agia como dono do campinho e Dino como defensor agressivo da ala de Moraes, Mendonça e Fux adotaram postura mais técnica. O contraste incomodou. Tanto que Gilmar elevou o tom contra Mendonça, que precisou pedir respeito durante a sessão, aos gritos.
E aí veio uma das imagens mais absurdas do dia: Moraes votando no próprio caso
O ministro que, durante anos, atuou como vítima, investigador, acusador e juiz no inquérito das fake news, agora acumulou também as posições de investigado, advogado e julgador da própria situação. Ele votou em um julgamento que tratava da possibilidade de abertura de investigação contra si mesmo.
A lei veda que um juiz julgue causa em que é interessado. Mas, no Brasil do direito xandônico, o óbvio deixou de ser óbvio há muito tempo.
Moraes tentou se defender dizendo que as mensagens eram fantasiosas porque apareciam em blocos de notas. Só que a Polícia Federal explicou o mecanismo: as notas eram criadas e, no mesmo intervalo, enviadas pelo WhatsApp. Uma vez poderia ser coincidência. Cinquenta e duas vezes começa a ficar difícil.
Tudo seria simples se Moraes entregasse seu telefone e mostrasse as mensagens. Se é inocente, se nada respondeu, se nada fez, bastaria abrir o aparelho e encerrar a dúvida, mas o celular de Moraes ninguém toca.
O cidadão comum tem celular apreendido por reportagem, por post, por suspeita, por ilação, por muito menos. O jornalista do Maranhão teve notebook e telefone apreendidos por publicar notícia inconveniente a Dino. Réus do chamado golpe da Disney tiveram garantias esmagadas.
Pessoas foram condenadas em processos conduzidos sob a régua de Moraes. Mas, quando o alvo é Moraes, aparecem todas as garantias, inclusive as que nem estão previstas em lei.
Esse foi o ponto mais escandaloso da sessão: Moraes exigiu para si aquilo que negou ao país inteiro.
Ele reclamou de investigação de ofício, quando o inquérito das fake news nasceu de ofício. Reclamou de ausência de defesa, depois de anos conduzindo procedimentos em que investigados mal sabiam do que eram acusados. Disse que a posição da PGR deveria ser acolhida, embora tenha ignorado a PGR quando ela pediu arquivamento do Inquérito das “Fake News”, em inúmeros atos de quebra de sigilo, busca e apreensão e prisões. Falou em ataque à democracia porque alguém ousou pedir que ele fosse investigado.
Ou seja, tudo o que Moraes aplicou aos outros passa a ser abuso quando chega perto dele.
Cármen Lúcia também deixou uma imagem marcante
Apareceu abatida, triste, pediu desculpas à nação, disse que queria ter ajudado a acalmar as coisas. Mas o povo brasileiro não quer apenas acalmar as coisas. O povo brasileiro quer que a Justiça volte a significar alguma coisa. Quer que a casta seja submetida à mesma lei que pesa sobre qualquer cidadão.
A frase mais simbólica, porém, veio de Gilmar Mendes. Ao criticar Mendonça, afirmou que até na máfia existia ética, sugerindo que buscar a abertura de investigação contra um colega seria uma falha ética que nem a máfia cometeria.
É uma frase que define o Supremo dos últimos anos.
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Para Gilmar, o problema não parece ser um ministro aparecer em mensagens suspeitas com um banqueiro, não entregar o celular, ter contrato milionário envolvendo a família e votar no próprio caso. O problema seria um colega levar os fatos adiante.
É o código da corporação.
O que agride qualquer pessoa honesta não é apenas a suspensão do julgamento. É o cinismo. É ver ministros falando em garantias depois de anos atropelando garantias. É ver Moraes exigir rito depois de anos operando exceção. É ver o tribunal que deveria proteger a Constituição se organizar para proteger a si mesmo.
Por enquanto, o placar ficou travado
STF busca estancar crise em julgamento inédito
Houve leitura de empate em torno das questões de ordem, e o pedido de vista interrompeu a conclusão. Juridicamente, a investigação fica suspensa. Politicamente, porém, o estrago está feito, porque a vista pode melar o julgamento, mas não apaga a sessão.
Não apaga Moraes votando no próprio caso. Não apaga Gilmar agredindo Mendonça. Não apaga Dino travando o julgamento. Não apaga Cármen pedindo desculpas à nação. Não apaga o fato de que, diante de 52 mensagens, de um contrato milionário e de um celular intocado, a maior preocupação de parte do Supremo foi impedir que a investigação começasse.
E isso deságua na eleição.
A tentativa de blindar Moraes prejudica Lula porque torna visível uma verdade que o sistema tenta esconder: Moraes é Lula, e Lula é Moraes. Os ministros mais ligados ao presidente, Dino e Zanin, votaram na linha de proteção a Moraes. A militância de redação lulista tenta vender a ideia de que Lula não tem nada a ver com a crise, que está distante, que não tem lado. Mas, na prática, os ministros de Lula defenderam Moraes.
Há duas razões para isso. A primeira é que toda a legitimidade moral da esquerda nos últimos anos foi construída em torno da narrativa de “defesa da democracia”, centralizada na figura de Moraes. Se Moraes cai como personagem da exceção, cai também o mito que sustentou a perseguição política.
A segunda razão é ainda mais simples: Moraes sabe onde estão os esqueletos do armário. Ele conhece a máquina, operou a máquina, acumulou informações, conduziu inquéritos, decidiu sigilos, prisões, quebras, censuras. E não parece ter o perfil de quem cai sozinho.
Por isso o sistema está em um paradoxo. Quanto mais blinda Moraes, mais expõe a podridão. Quanto mais expõe a podridão, mais alimenta a reação popular. Quanto mais cresce a reação popular, maior fica o risco eleitoral para quem depende desse arranjo.
Mas isso não significa tranquilidade.
Se o sistema está desesperado assim para proteger Moraes, a pergunta seguinte é inevitável: o que será feito contra Flávio Bolsonaro? Qual será o nível de intervenção, desgaste, contaminação e narrativa para impedir que a oposição transforme essa indignação em resultado eleitoral?
As pesquisas entram nesse quadro como termômetro, não como profecia. O dado político mais importante não é um número isolado. É a percepção que um número crescente de brasileiros vê no Supremo uma máquina de proteção do poder. E vê em Flávio, goste dele ou não, o caminho eleitoral mais direto para enfrentar essa engrenagem.
Só que eleição presidencial não é tudo.
Há Senado. Há Câmara. Há a possibilidade de mudar a correlação de forças que decide impeachment, composição institucional e limites reais ao Supremo. Se a indignação popular com a blindagem virar voto, o jogo pode mudar não apenas no Planalto, mas também no Congresso.
Nada disso garante coisa alguma. O sistema brasileiro está profundamente corrompido. O que vimos hoje foi um colapso moral, jurídico e político completo. Um jogo de rabo preso, em que cada um parece saber algo sobre o outro, e todos tentam evitar que a casa inteira pegue fogo.
O desgosto de assistir à sessão vem daí.
Não é apenas raiva. É tristeza por ver a que nível chegou o Brasil.
Enquanto ministros discutem como impedir ou atrasar uma investigação contra Moraes, ainda há pessoas presas, condenadas ou destruídas por processos conduzidos sob essa mesma lógica. O caso de Felipe Martins simboliza esse absurdo: condenado a mais de 20 anos em um processo marcado profundo desrespeito ao direito de defesa e ao devido processo legal, enquanto o relator dessa máquina persecutória agora afirma que a simples tentativa de investigá-lo seria ataque à democracia.
Essa manifestação de Moraes é a prova de que tudo precisa ser anulado, porque, se investigá-lo é ataque à democracia, então fica claro que nunca foi sobre democracia. Foi sobre ele. Foi sobre blindagem. Foi sobre poder.
O pedido de vista de Dino melou o julgamento por enquanto.
Mas não apagou o que o Brasil viu.
Viu um tribunal protegendo a própria casta. Viu garantias seletivas. Viu ministros exigindo para si o que negaram aos outros. Viu um país inteiro tratado como plateia de uma peça grotesca, em que o juiz vira vítima, investigador, acusado, advogado e julgador de si mesmo.

A vista pode comprar tempo, mas não compra legitimidade e não devolve ao Supremo a autoridade moral que ele mesmo queimou diante do país.


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