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Coluna Política

A eleição de 2026 decide se a direita volta a respirar antes de enfrentar o sistema

Se Flávio conseguir encerrar o estado de exceção, já terá criado a condição mínima para uma luta maior contra o sistema

Por Leandro Ruschel

19/09/2026 - 09:35

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Brazil's Flavio Bolsonaro to introduce public debt ceiling if elected  president, adviser says | Reuters
O Brasil talvez esteja no momento mais distante de afastar as oligarquias do poder.
Esse é o diagnóstico honesto. E ele é duro.
O país vive um colapso moral, político e econômico, representado pelo Descondenado na Presidência. Há um regime de exceção funcionando com censura, perseguição política, prisões, cassações, inquéritos sem prazo e intimidação permanente. Há uma corrupção moral profunda na elite brasileira e, sejamos francos, também em boa parte do próprio povo. E, do lado de quem quer mudar o país, não existe hoje um plano claro de saída nem meios suficientes para executá-lo, caso esse plano existisse.
Quem vende otimismo fácil em cima desse quadro não está fazendo análise. Está vendendo ilusão.
Mas é justamente por isso que a pergunta sobre Flávio Bolsonaro e as oligarquias precisa ser colocada no lugar certo. A dúvida é compreensível: se Flávio vencer, ele vai combater as oligarquias ou será aceito no clube?
O problema é que essa não é a batalha de 2026
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Na situação calamitosa em que o Brasil se encontra, o mais importante e o mais urgente não é prometer derrubar oligarquia nenhuma. É encerrar o regime de censura e perseguição política.
Ponto.
Isso pode frustrar quem espera uma resposta mais grandiosa. Mas, se Flávio conseguir apenas isso, já será um feito enorme, porque a liberdade não é uma pauta entre outras.
A liberdade é a condição de existência de todas as outras pautas. Sem um mínimo de liberdade, não há resistência organizada. Sem direitos fundamentais, não há formação de quadros. Sem canais abertos, não há comunicação. Sem imprensa, professor, pastor, deputado, jornalista, influenciador e cidadão podendo falar, não há movimento possível.
Ninguém combate oligarquia amordaçado, forma quadros com o formador preso e nem organiza movimento com o organizador cassado.
O primeiro passo é ganhar tempo, evitar o pior agora e reconstruir uma estrutura mínima para aproveitar a próxima janela de oportunidade quando ela aparecer. E ela vai aparecer. A história política não é uma linha reta. O sistema já teve rachaduras antes. Terá de novo.
Mas, quando essa janela abrir, será preciso existir gente livre para atravessá-la.
É aqui que entra uma objeção comum, e ela precisa ser levada a sério. Alguém mais estudado poderia dizer:
“mas movimentos de resistência podem crescer dentro de regimes autoritários. A própria esquerda fez isso durante o regime militar. Ela se organizou, ocupou espaços e chegou ao poder”.

A objeção é boa, mas a resposta a ela é ainda mais importante.
O regime militar reprimiu uma coisa com força: a luta armada. O terrorista, o guerrilheiro, o sequestrador. Esses foram caçados. Mas a tomada da cultura pela esquerda não foi esmagada. Ao contrário: em muitos momentos, foi tolerada e até incentivada.
Havia uma lógica por trás disso. Era a chamada teoria da panela de pressão, associada ao general Golbery: deixar a força revolucionária escapar por uma válvula controlada, para que ela se manifestasse nos livros, nas universidades, nas redações, nas editoras, no cinema, na sala de aula — e não nas armas.
A esquerda perdeu a guerrilha. Em troca, recebeu a cultura.
Deu no que deu!
Portanto, essa comparação não socorre o otimista. Ela prova o contrário. A esquerda conseguiu construir resistência sob o regime militar porque o espaço que mais importava, o da cultura, ficou escancarado para ela.
O regime reprimiu a arma, mas deixou passar a ideia. Hoje acontece o inverso.
Não existe luta armada de direita para reprimir. O que o regime reprime é a expressão da direita.
A válvula da panela está sendo soldada. E é a nossa válvula.
Por isso, não adianta falar em combater oligarquias como se a direita estivesse disputando numa normalidade democrática. Não está. Um povo censurado não constrói alternativa de poder. Uma oposição perseguida não forma liderança. Uma militância amedrontada não cria instituições próprias. Uma comunidade política vigiada o tempo todo não respira o suficiente para se organizar.
Antes da guerra maior, existe a batalha mais urgente: recuperar o direito de existir politicamente.
Há ainda uma segunda diferença decisiva em relação ao regime militar. Ao final, o regime militar entregou o poder aos civis. Fez eleição, fez anistia e saiu.
Um regime totalitário de esquerda não faz isso. Nunca fez, em lugar nenhum do planeta. Basta perguntar a um cubano há quantas décadas ele espera a “abertura” dele.
É por isso que a liberdade vem primeiro. Não porque as oligarquias não importem. Elas importam, e muito. O Brasil é governado há décadas por uma elite política, econômica, burocrática e cultural que sobrevive a eleições, escândalos, governos e partidos. Essa oligarquia precisa ser afastada do poder se o país quiser ser realmente livre.
Mas não se vence essa guerra sem vencer a primeira batalha, e a primeira batalha é encerrar o estado de exceção.
Isso significa restaurar os direitos fundamentais mais básicos. Significa acabar com censura política. Significa devolver segurança jurídica a quem fala, publica, denuncia, ensina e se organiza. Significa impedir que crítica ao poder vire crime. Significa permitir que a direita volte a construir canais, formar quadros, criar instituições, disputar cultura, organizar base e preparar o país para uma transformação mais profunda.
Se Flávio ganhar e conseguir apenas abrir essa válvula, já terá feito algo decisivo.
Não porque isso resolva o problema brasileiro inteiro. Não resolve. Não derruba automaticamente as oligarquias. Não purifica o Congresso. Não transforma o povo. Não reconstrói a elite. Não desfaz décadas de aparelhamento cultural.
Mas devolve oxigênio. E, sem oxigênio, ninguém luta.
A tentação fatal de 2026 é exigir da eleição uma solução completa para um problema histórico. É olhar para Flávio e perguntar se ele vai derrubar toda a oligarquia brasileira, como se essa fosse uma tarefa possível num país em que a oposição ainda luta para recuperar o direito de falar.
Essa exigência parece nobre, mas pode virar paralisia. Porque, se a eleição não promete a vitória final, o eleitor desiste da primeira batalha. E quem tenta vencer a guerra sem vencer a primeira batalha perde as duas.
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É sobre impedir o pior, recuperar liberdade suficiente para que uma reconstrução futura volte a ser possível, sair do sufocamento institucional em que o país foi colocado e permitir que a direita volte a respirar antes de tentar correr.
Então, com todas as letras: não sei se Flávio Bolsonaro vai combater as oligarquias ou se tentará ser aceito no clube. Essa é uma dúvida legítima. Mas essa não é a batalha desta eleição.
Combater as oligarquias é a guerra.
Recuperar a liberdade é a batalha de 2026.
E, no estado em que o Brasil se encontra, vencer essa batalha já seria muita coisa.
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