Barcelona, Real Madrid e PSG: como a base virou uma fonte de riqueza
Os três clubes estão entre os maiores formadores da Europa
Mesmo com cinco jogadores a menos que o Barcelona, o Real Madrid registrou 17,4% mais minutos. Na média, cada atleta formado pelo clube acumulou 841 minutos, 34% acima do Barcelona e 41% acima do PSG.
O dado revela uma diferença entre os modelos: o Barcelona se destaca pelo volume de atletas que chegam às principais ligas; o Real Madrid, pela utilização média desses jogadores.
– A formação de atletas passou a ser um dos principais ativos estratégicos de um clube por que tem potencial de impactar tanto desportiva como financeiramente. O atleta formado pelo clube pode se transformar em um ativo de grande valor, seja pela permanência e pelo desempenho esportivo, seja por uma futura transferência. Quando você consegue desenvolver um jogador dentro de casa, existe um ganho esportivo, porque ele pode chegar ao profissional e elevar o nível da equipe, aumentar seu nível de competitividade, mas também existe um ganho financeiro potencial muito relevante, num mercado cada global movimentando cada vez maiores volumes de negócios, em busca especialmente de talentos mais jovens. Portanto, investir na base é também investir na capacidade do clube de gerar e preservar valor ao longo do tempo – afirma Moises Assayag, especialista em finanças no futebol e sócio-diretor da "Channel Associados".
O talento também vira patrimônio
Em janeiro de 2026, o CIES estimou em 738 milhões de euros o valor de transferência dos jogadores formados pelo Barcelona que permaneciam sob contrato ou estavam emprestados. Real Madrid e PSG também apareciam acima de 200 milhões de euros em valor agregado de atletas formados ainda vinculados aos clubes. A estimativa representa potencial de mercado, e não receita ou dinheiro disponível em caixa.
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Para Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá, o investimento na formação precisa ser pensado como uma estratégia de longo prazo, capaz de gerar retorno esportivo e econômico para o clube. No Cuiabá, a base recebe investimento contínuo e é tratada como parte importante da estrutura de desenvolvimento e sustentabilidade do futebol.
– Quando você investe na formação, não está pensando apenas em revelar um jogador para o time profissional. Existe todo um processo de desenvolvimento, de estrutura e de preparação para que esse atleta possa chegar ao alto nível. Se ele conseguir se tornar um jogador importante para o clube, o retorno é esportivo. E, se em algum momento houver uma negociação, também existe um retorno econômico. Por isso, entendemos a base como um investimento de longo prazo, que ajuda a construir o futuro do clube – afirma Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá.
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O caso mais expressivo é Lamine Yamal. Em junho, o CIES estimou o atacante em 358 milhões de euros, o maior valor calculado pelo modelo. A cifra equivale a cerca de 49% do patrimônio estimado para os jogadores formados pelo Barcelona ainda vinculados ao clube.
O cálculo não significa que Yamal possa necessariamente ser vendido por esse valor. Trata-se de uma estimativa baseada em variáveis esportivas e contratuais. Ainda assim, mostra o tamanho que um único talento pode alcançar dentro do patrimônio esportivo de um clube.
– Barcelona, Real Madrid e PSG mostram que existem diferentes caminhos para transformar a formação de atletas em valor esportivo e econômico. Esse trabalho exige estrutura, metodologia, respeito ao tempo de desenvolvimento e uma transição consistente para o profissional. Para os clubes brasileiros, o aprendizado está em tratar a base como parte estratégica de um projeto de longo prazo, capaz de fortalecer a equipe e contribuir para a sustentabilidade financeira – comenta Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy.
No Real Madrid, a base também abastece o mercado
A formação do Real Madrid também alimenta o mercado de transferências. Segundo a "Cadena SER", jogadores formados pelo clube geraram cerca de 194 milhões de euros em vendas no verão europeu de 2026, o maior volume da história da academia.
O modelo permite que atletas sem espaço no time principal sigam carreira em outros clubes sem que o Real Madrid necessariamente perca todo o vínculo econômico. Em negociações recentes, o clube preservou participações ou mecanismos ligados a futuras operações.
A estratégia amplia as possibilidades de aproveitamento do talento: um jogador pode não se tornar titular no Santiago Bernabéu e ainda assim gerar valor para o clube.
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PSG aposta na estrutura
O PSG está em outra etapa. O clube investiu 300 milhões de euros no Campus PSG, em Poissy, inaugurado em 2024. O complexo ocupa 59 hectares, tem 16 campos e reúne as equipes profissionais e as categorias de base.
Na avaliação dos centros de formação da temporada 2025/26, a Federação Francesa de Futebol atribuiu 4,55 estrelas ao PSG, a maior nota entre os clubes da Ligue 1. O ranking considera profissionalização, minutos no time principal, seleções nacionais, desempenho escolar e representação europeia. Na temporada, o clube também conquistou os campeonatos nacionais Sub-17 e Sub-19 e a Coupe Gambardella.
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– O processo formativo precisa ser entendido de maneira mais ampla do que simplesmente revelar jogadores. O Barcelona é um exemplo particular porque construiu uma metodologia própria, com identidade e conexão entre formação e equipe profissional. A Espanha também mostra a importância da continuidade: muitos atletas passaram pelas seleções de base antes de chegar ao mais alto nível. Formação exige convicção, paciência e confiança no processo. O resultado desse trabalho deve ser avaliado pela consistência da formação e pela capacidade de preparar jogadores para chegar ao futebol de elite – disse Rui Costa, diretor executivo de futebol com passagens por São Paulo, Grêmio e Atlético-MG.
Ainda assim, o PSG aparece atrás dos rivais espanhóis no levantamento do CIES: são 31 jogadores formados e 18.455 minutos, contra 35 e 29.439 do Real Madrid.
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O valor está no que acontece depois
Os três clubes mostram que o sucesso de uma academia não depende apenas de quantos jogadores ela revela. O Barcelona lidera em volume e patrimônio potencial; o Real Madrid, em utilização média e circulação de seus talentos pelo mercado; e o PSG avança na estrutura e na avaliação de sua formação.
– Esses clubes europeus mostram que formar talentos existe um trabalho de longo prazo, que envolve metodologia, estrutura, acompanhamento e, principalmente, a capacidade de entender que cada atleta tem o seu próprio tempo de desenvolvimento. Para os clubes brasileiros, olhar para esses exemplos pode ajudar a reforçar a importância de investir cada vez mais na formação, não apenas pensando no retorno esportivo, mas também na construção de ativos que podem gerar valor para o clube no futuro. Quando a base é tratada como parte estratégica do projeto, o talento deixa de ser apenas uma promessa e passa a ser um patrimônio – afirma Fábio Pizzamiglio, presidente do Juventude, clube que chegou à final do Gauchão sub-20 este ano e há duas temporadas disputa a Série A nacional da categoria.
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A diferença está no que acontece depois que o atleta deixa a base: quanto joga, quanto se valoriza e até onde sua carreira pode chegar. No futebol europeu, formar deixou de ser apenas uma questão esportiva. O investimento começa na base, mas o valor é construído ao longo da trajetória profissional.



