O governo paralelo que o Master expôs
Existe algo muito mais sinistro no escândalo do Master do que as próprias negociatas
| Leandro Ruschel set 23 | ![]() |
O Globo revelou mensagens do celular de Vorcaro em que seu então advogado, Walfrido Warde, relata a construção de uma interlocução com o governo Lula.
Em abril de 2024, dizia que Marcola, chefe de gabinete da Presidência, cobrava o e-mail com os “interesses do grupo”.
Em setembro:
“Estive com o Presidente Lula longamente ontem. Vc vai gostar”.
Em janeiro de 2025, contava que o presidente agradecera “mais uma vez o whisky”.
O Planalto nega o whisky e os recados. Admite apenas o que não tem como negar: Lula recebeu Vorcaro em 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial. Warde agora diz que tratava com Marcola e outros integrantes do governo, não diretamente com Lula. Ou seja, a interlocução com o Planalto existia.
E vejam quem é o mensageiro. O escritório de Warde teve como sócia Roberta Rangel, então mulher de Toffoli. Toffoli depois assumiu a relatoria do caso Master e só largou o osso quando os vínculos de seu entorno familiar com personagens e fundos ligados ao caso vieram à tona.
O escritório da mulher de Moraes tinha contrato de R$ 131 milhões com o Master, R$ 3,6 milhões por mês, para atuar em inquéritos da PF, no Banco Central, na Receita, no Cade e no Congresso.
O escritório da família Lewandowski recebia R$ 250 mil mensais do banco, contrato que seguiu enquanto ele era ministro da Justiça.
Em dezembro de 2024, Vorcaro orientou seu diretor jurídico a chamar o filho do ministro:
“Temos um contrato. Tem que chamar ele urgente. [...] E dá algum caso ou parecer para ele fazer”.
Eis a juristocracia exposta: advogados poderosos, ex-ministros e parentes de ministros circulando entre Planalto, Esplanada e Supremo, com a mesma chave para todas as portas.
Isso não é o lobby que sempre existiu, por mais nefasto que ele seja
O lobby tradicional buscava interesses: um contrato, uma regra favorável. Pressionava o poder, mas ficava do lado de fora. A rede exposta pelo Master evoluiu para exercer o controle político efetivo do país: define quem é investigado e quem é poupado, quem é censurado, quem vai preso e quem pode disputar eleição. Virou um governo paralelo, que engoliu as instituições e detém o poder de fato, sem jamais ter recebido um voto.
E tomou o caminho autoritário em 2019, quando o Supremo abriu por portaria, sem o Ministério Público, o inquérito das fake news.
Um de seus primeiros atos foi censurar uma reportagem que ligava Toffoli a Marcelo Odebrecht. Para blindar a rede, era preciso calar quem a expunha.
Depois, a repressão só se expandiu. Em nome do combate aos “atos antidemocráticos”, milhares passaram pela máquina de inquéritos e processos, perfis foram censurados e centenas terminaram atrás das grades. O excepcional virou permanente: questionar o sistema passou a significar ser tratado como inimigo dele.
O mais grave: nenhum mecanismo de controle deteve a rede a tempo. Ela só emergiu quando o Master colapsou. E, mesmo exposta, não se corrige.
Em dezembro de 2025, Gonet arquivou o pedido de investigação sobre o contrato da mulher de Moraes.
Agora, alegando vício processual, pede a anulação do relatório da PF que dedicou quase 190 de 218 páginas a Moraes. Detalhe: o nome do próprio Gonet aparece nas mensagens.
A ofensiva pela blindagem é aberta
Quatro ministros já se alinharam: Gilmar, Zanin e o próprio Moraes votaram para unir, e assim amarrar, o caso de Moraes ao julgamento de supostas irregularidades de Mendonça, o ministro que expôs o relatório; Dino, que também se manifestou pela união, pediu vista e interrompeu o julgamento. E Zanin acaba de negar, por ora, a liminar que obrigaria o Senado a instalar a CPI sobre Moraes, Toffoli e Vorcaro, parada desde março com 41 assinaturas.
E quem segura a CPI? O presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Segundo a Veja, numa proposta de delação rejeitada pela PF, Vorcaro relatava o pagamento de US$ 30 milhões ao senador, numa conta no exterior, em troca de apoio a interesses do banco.
Alcolumbre nega. É o mesmo Alcolumbre que, segundo mensagem de Fábio Faria a Vorcaro obtida pela PF, estava “louco perguntando se as suíças vão vir” a uma festa do banqueiro. Foi justamente a alegada omissão dele que Zanin considerou não comprovada.
Passaram sete anos nos vendendo “defesa da democracia”. Poucos negócios no Brasil rendem tanto.
O socialismo venceu em Berlim. E desta vez não precisou de muro.
No domingo, 20 de setembro, o Die Linke, partido cuja linhagem remonta ao antigo partido comunista da Alemanha Oriental, terminou em primeiro lugar a eleição estadual de Berlim. Fez 25,7% dos votos, mais que o dobro dos 12,2% de 2023. A CDU ficou com 18,8%, a AfD com 16,3%, os Verdes com 14,3% e o SPD, que dominou a política berlinense por décadas, afundou em 12,1%.
A candidata vencedora, Elif Eralp, fez campanha abertamente inspirada em Zohran Mamdani: uma delegação do partido foi a Nova York estudar a operação, e ela mesma confirmou o intercâmbio com a equipe do prefeito socialista. Toda a campanha girou em torno de uma palavra alemã: Vergesellschaftung. A tradução jurídica é “socialização”: o Estado retira compulsoriamente os imóveis do proprietário privado mediante indenização que ele próprio define em lei. Quando é o Estado quem decide o que toma e quanto paga, a tradução honesta continua sendo confisco.
Vale lembrar quem é esse partido
Quando o Muro caiu, em 1989, a SED, partido único que comandou a ditadura da Alemanha Oriental, não foi dissolvida. Trocou de nome, virou PDS e, em 2007, fundiu-se com uma dissidência sindical do oeste para formar o atual Die Linke. Até hoje a legenda abriga, oficialmente, uma “Plataforma Comunista”, que se define como associação de comunistas e declara o socialismo como objetivo, monitorada como extremista por órgãos de proteção constitucional de alguns estados alemães. E não é preciso teoria de conspiração para descrever o projeto: basta ler o programa oficial.
Ele promete superar a “predominância do capital”, construir o “socialismo democrático” e transferir grandes empresas estratégicas para propriedade pública ou coletiva. Está escrito. Assinado. Publicado.
Pois bem. O que isso significa na prática em Berlim? A principal bandeira de Eralp é aplicar a socialização aos imóveis de toda empresa que possua mais de 3.000 apartamentos na cidade.
Estima-se que cerca de 220 mil unidades seriam atingidas. E o mais impressionante: existe mandato popular para isso. Em 2021, um referendo berlinense aprovou, com 57,6% dos votos e mais de um milhão de pessoas, a proposta de socializar as grandes holdings imobiliárias.
A Constituição alemã, no seu Artigo 15, permite transformar meios de produção em “propriedade comum” mediante lei e compensação, e uma comissão de especialistas do próprio governo de Berlim concluiu que a operação, em princípio, caberia dentro da Constituição.
A expropriação em massa, na Alemanha de 2026, tem base eleitoral, base jurídica e, desde domingo, o partido mais votado da capital disposto a executá-la.
E não para no tijolo. A plataforma nacional do partido, na eleição federal de 2025, propôs imposto sobre grandes patrimônios, aumento do imposto sucessório, alíquota máxima de renda de 53% e uma “Reichensteuer” de 75% para os mais ricos. A promessa é sempre a mesma: começa no bilionário. E termina, como na Argentina do Bienes Personales, no assalariado.
Há, porém, um detalhe que o eleitor jovem de Berlim desconhece ou prefere esquecer: a cidade já fez o teste de laboratório. Em 2020, Berlim impôs um teto estadual de aluguéis, o Mietendeckel.
Enquanto a lei vigorou, os aluguéis anunciados nos imóveis regulados caíram entre 7% e 11%, segundo o instituto DIW. E a oferta de apartamentos para locação caiu aproximadamente pela metade; um estudo posterior do ifo estimou encolhimento de até 60%. Quem já estava instalado ganhou um desconto.
Quem procurava um lugar para morar ficou olhando para a vitrine vazia. É o produto que o socialismo entrega em toda parte, em todas as épocas, sob todas as embalagens: escassez. O Tribunal Constitucional derrubou a lei em 2021 por vício de competência, e a resposta política da esquerda berlinense à evidência do fracasso foi dobrar a aposta: se o controle de preços encolheu a oferta, a solução é tomar os imóveis.
Agora, o dado que deveria tirar o sono do Ocidente inteiro
Quem elegeu o Die Linke não foi o aposentado saudoso da DDR. O partido venceu nos dois lados da antiga cidade dividida, com 27,8% no leste e 24,1% no oeste, e construiu sua vitória sobre os jovens: 43% entre eleitores com menos de 25 anos, cerca de 49% na faixa de 25 a 34, e 51% entre as mulheres com menos de 25 anos.
Uma em cada duas moças de Berlim votou no herdeiro do partido que atirava em quem tentava pular o muro. Já na eleição federal de 2025, 37,1% das eleitoras jovens alemãs haviam votado na legenda. A curva só sobe.
Escrevi em junho que o socialismo do século XXI abandonou a estatização das fábricas e adotou a captura das instituições: escola, universidade, imprensa, Judiciário. Berlim mostra o capítulo seguinte dessa estratégia gramsciana. Depois de décadas formando militantes em vez de cidadãos, a geração está pronta, e o confisco volta ao cardápio, agora pela urna, com aplauso e com respaldo de plebiscito.
Não é o fuzil tomando a propriedade. É a propriedade sendo entregue de bandeja por uma juventude educada para odiá-la.
E há um sintoma que acompanha essa esquerda “progressista” aonde quer que ela cresça. Em outubro de 2024, o congresso berlinense do partido retirou de uma resolução contra o antissemitismo justamente o trecho que citava o antissemitismo eliminacionista de Hamas e Hezbollah. Cerca de 40 dirigentes abandonaram o plenário em protesto; cinco parlamentares deixaram a legenda em seguida.
Na campanha de 2026, um ato do diretório de Neukölln exibiu um rapper glorificando a sequestradora Leila Khaled e desejando a morte de soldados israelenses, episódio que a própria Eralp precisou classificar como transgressão e cobrar do diretório. Tudo isso numa cidade que registrou 2.197 incidentes antissemitas em 2025. Seis por dia. A esquerda que prega “inclusão” e “diversidade” convive, dentro de casa, com um problema crônico e documentado com judeus e com a existência de Israel.
O que vem agora?
O Die Linke tem 47 das 158 cadeiras e decidiu buscar coalizão com SPD e Verdes, que juntos somariam 95, folga sobre as 80 necessárias. Mas antes mesmo de as negociações formais começarem, os dois obstáculos já estão postos na mesa: a expropriação dos imóveis, que o SPD resiste a engolir, e o antissemitismo, sobre o qual os Verdes cobram respostas. Quem poderia imaginar...
O Muro caiu em 1989, mas o partido que o construiu não caiu junto. Trocou de nome, esperou a escola e a universidade formarem uma geração inteira, importou o método de marketing de Mamdani e voltou a vencer na mesma cidade, agora do lado de cá do muro, sem precisar de arame farpado.
O socialismo não seduz mais prometendo fábricas estatais; seduz prometendo aluguel barato a uma juventude que nunca viu a conta chegar. Mas a conta chega. Berlim já pagou uma parcela em 2020 e não aprendeu.
Reagan avisava que a liberdade está sempre a uma geração de ser perdida. Berlim acaba de mostrar, com precisão de laboratório, como se perde: primeiro a escola, depois a urna, por fim a propriedade.
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