O primeiro turno foi pior para o PT do que parece
Por trás dos números, há um recado mais profundo do que a vantagem de Flávio: a urna mostrou que a revolta de 2013 não morreu
| Leandro Ruschel out 12 |
O brasileiro que trabalha disse não.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente: 47,03% contra 45,16%. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada desde a Constituição de 1988, e terá 28 senadores. E 714 municípios que Lula venceu em 2022 passaram para Flávio. Nenhum fez o caminho inverso.
Esse é o recado mais simples das urnas: a maioria dos brasileiros não está satisfeita com o rumo do país. A AtlasIntel desta semana mostrou 53,4% de desaprovação ao governo Lula.
Mas há algo mais profundo.
O PT está desesperado porque a urna não rejeitou apenas um governo. Ela rejeitou um arranjo. Desde a redemocratização, o Brasil vive uma negação da representação dos valores e da vontade do povo. A esquerda tomou, uma a uma, as instituições, inclusive o próprio sistema político. Somado ao velho patrimonialismo, ao estamento que Faoro descreveu, isso produziu um sistema que não representa o brasileiro. Parasita.
No primeiro turno, esse brasileiro respondeu.
Em setembro, contei aqui essa história em dois movimentos. Só ela explica como uma força política censurada, perseguida e com o líder preso chegou a esse resultado.
O primeiro movimento foi a revolta. Em 2013, milhões foram às ruas com uma intuição: o sistema estava apodrecido.
A Lava Jato transformou a intuição em prova. Veio o impeachment de Dilma Rousseff. Em 2018, Lula foi preso, e o Brasil elegeu Jair Bolsonaro com 57,8 milhões de votos.
Repare na ordem dos fatores. Bolsonaro não criou a revolta. A revolta criou Bolsonaro.
Guarde isso, porque essa é a chave do domingo.
O segundo movimento foi a reação do sistema. Era preciso tirar da cadeia quem tinha sido preso e retomar o controle. Primeiro veio a arma: o Inquérito das Fake News, aberto em 2019, com Lula ainda preso. Depois, a soltura. Depois, a descondenação.
Não absolveram Lula. Apagaram o processo. E a Lava Jato foi desmontada peça por peça.
Em seguida, um Judiciário aparelhado passou a reprimir a revolta: censura em massa, a eleição de 2022 conduzida por um árbitro que acumulava a caneta da censura, o Descondenado de volta ao Planalto, as prisões em massa do 8 de janeiro e o show trial que condenou Bolsonaro a 27 anos de prisão.
O objetivo do sistema, que uniu a esquerda e o Centrão, era um só: criminalizar o bolsonarismo e manter o controle da política.
Não funcionou.
E não funcionou por três motivos.
Primeiro, Washington mudou de lado. Sob Joe Biden, o governo americano foi aliado desse projeto. Diante das ordens de censura de Moraes, um relatório da Câmara dos Estados Unidos registrou o “silêncio do governo Biden”.
Com Trump vieram a revogação de vistos de ministros do Supremo e a Lei Magnitsky contra Moraes. As sanções caíram em dezembro, mas o regime perdeu o seu fiador externo.
Segundo, o bolsonarismo não foi desmantelado. Censuraram, perseguiram e prenderam a liderança. Bolsonaro segue preso, hoje em domiciliar, proibido até de receber visitas políticas. E a base não se dispersou.
Terceiro, o establishment rachou. A política econômica de Lula está levando o Brasil para o precipício: a dívida bruta saiu de 71,7% para 82,9% do PIB, e a carga tributária bateu recorde em 2025.
Parte do establishment, além de perder dinheiro, enxergou o risco político, porque foi uma crise econômica que abriu caminho para a Lava Jato. E parte do próprio Centrão percebeu que o poder concentrado no Supremo tinha passado do ponto. O caso Master mostrou o preço desse poder sem freio.
Os sintomas apareceram antes das urnas: a rejeição de Messias em abril, a primeira desde 1894, e o Centrão correndo para o palanque de Flávio nesta semana.
Esse racha abriu espaço para uma representação, ainda que mínima, da vontade popular. Uma parcela importante da população entendeu quem é o órgão máximo da repressão, o Supremo, e que o regime se sustenta em três pernas: o Supremo, o PT e o Centrão.
Agora repare em quem mais perdeu
Comparando os eleitos de 2022 com os de 2026, o PL foi de 99 para 121 deputados. O núcleo do Centrão caiu de 231 para 207. A esquerda inteira foi de 125 para 124: ficou onde estava. No Senado, o PSD de Kassab despencou de 15 para 5 senadores.
A perna que quebrou não foi a do PT, foi a do Centrão, e isso explica o desespero porque o PT depende do Estado, mas o regime depende do Centrão para funcionar.
O Centrão é a graxa do arranjo. É a engrenagem que permite ao sistema negociar, blindar, comprar tempo e atravessar crises. Quando essa perna encolhe, o regime não cai automaticamente, mas passa a mancar.
Há ainda outra dimensão: quem votou em quem
O apoio a Lula gira, em grande medida, em torno de quem depende do Estado. Entre os beneficiários do Bolsa Família, Lula tinha 52% contra 27% no Datafolha. Entre os demais, perdia: 36 a 39. Em nove estados, concentrados no Nordeste e no Norte, há mais famílias no Bolsa Família do que empregos com carteira assinada.
Há também a classe média do serviço público, dependente do Estado em outro nível. E uma elite urbana formada em universidades dominadas pela esquerda. Nas seções mais ricas, de Higienópolis ao Leblon, Lula subiu em relação a 2022.
Uma elite orientada não por valores, mas pelo que considero antivalores de esquerda. E, por fim, os iludidos, os idiotas úteis, que acreditam sinceramente que a esquerda busca uma sociedade mais justa.
Do outro lado, quem votou em Flávio?
O brasileiro que trabalha
Nas seções de perfil classe C, Flávio venceu por 53 a 37, segundo o cruzamento de 86 mil locais de votação feito pelo Canal Meio. E o crescimento veio justamente de onde a esquerda se julgava dona. Nas seções mais pobres, Flávio subiu quatro, cinco pontos. Mais da metade do ganho veio de cidades com menos de 50 mil eleitores. E Lula perdeu votos em todos os estados do Nordeste.
É o brasileiro que trabalha, empreende, quer segurança e quer prosperar pelo próprio suor. Justamente quem o PT arrocha com impostos e regulações. O que a intelectualidade de esquerda chama, com desprezo, de “pobre de direita”.
São as pessoas parasitadas pelo sistema.
Foram esses brasileiros, trabalhadores e honestos, que disseram não.
E há uma simbologia impossível de ignorar neste 12 de outubro. No Dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira e Rainha do Brasil, vale lembrar que parte decisiva desse movimento veio justamente de um Brasil profundo, cristão, trabalhador, interiorano, tratado pela elite progressista como atraso, superstição ou massa manipulável.
Esse Brasil foi às urnas e respondeu.
O PT está desesperado porque percebeu que não perdeu apenas para uma campanha. Perdeu para uma força social que sobreviveu à censura, à perseguição, à prisão da liderança e à máquina inteira do regime.
O sistema conseguiu derrotar Bolsonaro nos tribunais. Não conseguiu derrotar quem o elegeu, mas é aqui que entra o aviso importante: não é hora de baixar a guarda.
Um sistema que tentou encerrar 2013 à força não vai aceitar o terceiro movimento com elegância republicana. Ele ainda tem a caneta, o tribunal, a máquina, os aparelhos, a imprensa e pedaços do Centrão suficientes para tentar preservar o que resta do arranjo.
O primeiro turno mostrou que o brasileiro que trabalha continua de pé.
Os próximos dias vão mostrar se ele entendeu que vitória nas urnas não é o fim da batalha. É o começo da cobrança.













